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sábado, 9 de janeiro de 2010

Eutanásia: sim ou não?

Duque - 3 anos

Estou com um paciente internado há 5 dias, um rottweiller de 3 anos de idade.Ele tem insuficiência renal crônica e todas as conseqüências disso. Os dados dos exames não são animadores, ele já passou por uma transfusão de sangue, não quer se alimentar e está deprimido. Ontem consegui que o dono, um senhor muito educado e simpático, finalmente fizesse uma ultrassonografia. “O último exame que vamos fazer pra ver se ele ainda tem alguma chance”, disse ele. As imagens não foram nada animadoras: rins hipotrofiados, destruídos. As chances desse cão, o Duque, sobreviver sem internamento até passar a crise urêmica, se passar, são pequenas. O maior problema na insuficiência renal é que a uréia, composto que tem de ser eliminado pelos rins, começa a se acumular no organismo e provoca náuseas, vômito, úlceras no trato gastrointestinal, diarréia e afeta vários órgãos (especialmente o fígado). Trocando em miúdos, ela intoxica o animal lentamente. Num caso crônico como esse, o animal se adapta a um limiar alto de uréia, mas a medida que isso vai piorando, ele precisa de um novo suporte (medicamentos, alimentação adequada, reposição hídrica endovenosa) e tem que ficar internado. Infelizmente, aqui em Uberlândia, não temos clínicas de hemodiálise para cães. Até conseguimos quebrar um galho fazendo diálise peritoneal, mas não é suficiente, é só um paliativo para continuar lutando pela vida.
Hoje falei com todas as letras o que o dono do Duque não queria ouvir: “ele não tem chances de ficar bem se for para casa agora. Ele precisa da diálise peritoneal e precisa continuar internado por tempo indeterminado, até a uréia baixar, até voltar a comer, até os vômitos estarem bem controlados. Se isso acontecer.”. E ele me respondeu o que eu tinha certeza que ia ouvir e não queria: “então vamos sacrifica-lo, não quero que nem ele e nem a gente sofra mais”. Eu, instintivamente, respondi: “então a internação dele termina hoje. Mas o senhor o deixa aqui que eu ainda vou tentar, mas de agora em diante a responsabilidade é minha". Como se a dona dele fosse eu! Ele foi embora desolado, com os olhos rasos de lágrimas; sei que fez essa opção porque, no pensamento e concepção de vida dele, é assim que vai aliviar o sofrimento do seu cão. E foi a primeira vez que não tive vontade de xingar alguém que me falasse em sacrificar um animal.
Só que a minha missão é lutar pela vida, dando dignidade e bem estar aos meus pacientes. É amenizar o sofrimento quando não é possível acabar para sempre com ele. É, sobretudo, cuidar do meu paciente com amor, atenção e respeito até o último dia da vida dele. E eu não tenho o direito de encurtar essa vida, de interferir assim no destino, de apressar as coisas. Assim como não tenho o direito de prolongar qualquer sofrimento e de brincar de ser Deus ou o diabo. Eu nunca eutanasiei um animal e o meu maior sofrimento é quando não consigo tirar toda a dor do animal e vejo que ele morreu com algum mal estar. Só que o que o dono entende como "sofrimento" do animal, na maioria das vezes, é o sofrimento dele próprio. O sofrimento de não poder fazer muita coisa, o sofrimento financeiro, o sofrimento de ter de arranjar tempo para cuidar de um moribundo, o sofrimento de ter de abrir mão de muitas coisas para si para conseguir cuidar do seu animal de estimação.
O animal sente por estar longe da sua casa, do seu dono, mas o mais impressionante é como ele sabe reconhecer que está sendo cuidado, mesmo que por estranhos. O Duque chegou aqui de focinheira, eu recebi mil avisos para ter cuidado que ele era muito bravo. No dia seguinte o dono dele chegou e tomou um susto quando me viu abrir a gaiola de internação, fazer carinho nele, trocar o soro, dar água, coloca-lo de pé, e ele nem ao menos fazer cara de que ia me devorar. E estava sem focinheira.
Como sacrificar um animal assim? Como acabar com a vida de um bichinho que só precisa de mais um tempo de cuidados e carinho? Eu sei o final desse filme. Infelizmente, já o vi muitas vezes, inclusive com um dos meus cães. Sei que o tempo de vida do Duque é curto e cheio de altos e baixos. Sei que talvez ele não reaja nada à diálise que vou fazer na segunda-feira. Mas, e aí, por achar que o final pode ser a morte, inevitável para todos nós, eu tenho que procurar uma foice e fazer o papel da dita cuja? Não mesmo! Duque morrerá com nobreza, no tempo que a sua natureza determinar.

Agora olhe você pra essa carinha aí na foto e me diga: como sacrificar olhos assim, embora tristes, tão cheios de vida?
Quem ama seu pet, levanta a mão e grita: EU!
:o)